quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Palavras


A dor pode ser algo que todos temos em comum. Mas é diferente em cada pessoa. Pois não é apenas a morte que temos de chorar, é a vida, é a perda, é a mudança.

E quando nos perguntamos porque tem de ser tão mau de vez em quando, porque tem de doer tanto, temos de nos lembrar que tudo pode mudar de repente.

E é assim que nos mantemos vivos. Quando dói tanto que nem conseguimos respirar? É como sobrevivemos. Recordando aquele dia, de certo modo, impossivelmente, não te sentirás assim. Não irá doer tanto.

Pois é certo que a dor chega na altura própria para cada pessoa. Ao seu modo. Portanto, o melhor que podemos fazer, que alguém pode fazer, é tentar ser honesto.

Enfim… O que é mesmo chato, a pior parte da dor, é que não conseguimos controlá-la. E por isso o melhor que podemos fazer é permitir-nos senti-la quando chega e deixá-la partir quando conseguirmos.

Mas no fim de tudo… o pior é que, quando pensamos que já a ultrapassámos, começa de novo. E de cada vez que começa…ficamos sem fôlego.

domingo, 1 de agosto de 2010

8 de Maio


“O que queres tu de mim?”
É a pergunta que está permanentemente dentro da minha cabeça. Pergunta que questiono a mim mesmo a todo o tempo, constantemente.
Aproxima-te de mim, deixa-me observar-te completamente. Acalma a tua respiração ofegante, pois é necessário ter calma neste situação. Senta-te, não a meu lado, mas sim rigorosamente perto de mim, para que não deixe de observar o teu olhar. Reflecte bastante, liberta a tua mente, e responde-me: “O que queres tu de mim”?
Momentos de puro silêncio contemplam o momento.
Estou petrificado, à espera da tua sincera e verdadeira resposta. Olha-me nos olhos, e responde-me.

Apenas escuto a tua respiração ofegante, como quem tem algo importante a dizer, mas falta-lhe a coragem. A minha respiração? Congelou com o silêncio.
O tempo passa, e o mero silêncio mantém-se. Estou a dar em doido, num estado de pura a sadia loucura. No meio do silêncio, escuto os ponteiros do relógio a “marcar” as horas – Já se faz tarde. Reparo no tempo que gastei em ti, todas as horas e os minutos em que me entreguei a ti. Esse tempo passou – “Era uma vez”, tal como nas histórias de encantar infantis.

Mais uma hora, e ainda nenhuma palavra saiu da tua boca. Nem um único gesto também. No entanto, não desvias o olhar de mim. Parece que te hipnotizaram, e não consegues desviar o olhar para mais nada, nem para nenhum objecto. Tento ao máximo não olhar para ti, mas sim para aquilo que está a meu redor, – meros objectos insignificantes, fotografias, o relógio – mas não consigo. Tento, mas não dá para disfarçar. Olho finalmente para ti, tal como tu para mim, de forma intensa e da maneira como parece que tens algo sério para me dizer, e reparo… Reparo que, estás diferente. Diferente, para pior, talvez. O teu olhar, encontra-se sombrio e triste ao mesmo tempo. O teu sorriso, aquilo que usas para tentar disfarçar a tua mágoa e tristeza. Tristeza essa, talvez devido à resposta que vais dizer-me àquela questão que me consome. A questão que preenche todo o meu pensamento diariamente, constantemente…

É quase dia, mais concretamente, o Sol está a nascer. Subitamente, o relógio pára, e finalmente, escuto um suspiro teu. A tua respiração voltou, e aí, mexes-te finalmente. Caminhas em direcção em mim, lentamente, e sentas-te mesmo a meu lado quase que ao ritmo da música que está no ar.
A minha respiração volta, torna-se demasiado ofegante. Não consigo respirar, e o meu batimento cardíaco está muito forte. “É agora. Finalmente saberei a resposta”, digo eu para mim próprio, apesar de ter a noção de qual será a resposta.
Agarras a minha mão direita, enquanto te aproximas ainda mais de mim. E aí, diriges-te até ao meu ouvido. Ao início, não percebi porquê, mas depois…
Diriges-te ao meu ouvido, e aí sussurras “a resposta”. Um sussurro quase impossível de se escutar.

”Nada. Foi bom enquanto durou”, foi a tua resposta. Aquilo que me sussurraste.
Petrifiquei-me novamente, enquanto deixo cair no chão o copo com água que se encontrava na minha mão esquerda. O barulho do copo a cair, representou o fim. E os estilhaços de vidro, representam a forma como o meu coração ficou, após aquelas palavras

Olhas-me nos olhos uma última vez, e dizes adeus. Eu, completamente congelado e quieto, nada faço. Encontro-me sem reacção.
Levantas-te lentamente, e diriges-te à tua companhia. Aí, eu observo-te a ir, e mesmo assim nada faço.

Morri ali. Somente me recordava do som do copo a cair no chão, som esse que abafou por completo as gargalhadas das pessoas, a música do ar, o momento em que me respondeste. Não consigo mexer-me, nem sequer sou capaz de falar, de te “retribuir” o adeus, embora não quisesse dizê-lo. Por isso, decido agora, pois não tive a capacidade de o dizer.

Dia 8 de Maio de 2010