segunda-feira, 29 de julho de 2013

Não deu conta

Nem sei por onde começar, onde procurar... Nem sei como voltei aqui, não me lembro de ter regressado a este ponto de partida, ou quem sabe ponto de fim.

Penso que a Terra já nem se lembra do meu nascimento, provavelmente tenho mais idade dentro de mim do que a maioria dos seres que "nasceram" comigo. Porém, de que serve esta comparação absurda? Não me irá trazer nada de novo, só me irá sufocar, prender.

Ao longo dos meus 21anos, li histórias, fui criando outras, fiz partes de algumas... Chorei e ri com quase todas as personagens que criei, encontrei, cruzei. Fiz amor com tantas outras e magoei umas outras tantas. Fui deixando a minha marca nelas, nas páginas que pisei, nos sonhos que construí, e hoje olho em volto e o que encontro são meros livros fechados, velhos... Cobertos de poeira.

Estou de volta ao meu quarto escuro, gélido... Abro a janela e arranco os cortinados para tentar perceber a quantas anda o mundo lá fora, porém, o fumo dos meus cigarros é tanto que a simples brisa do mundo cobre-me a visão. Sinto o meu corpo envolvido num banho de cinzas e sombras que me puxam para algo mais forte que eu, algo que nem eu conheço, mas já o senti outrora. Tento erguer-me e abrir a porta do quarto, mas não consigo sequer virar-me, estou mecanizado a um único gesto, o gesto de levar o cigarro à boca, puxar o seu doce veneno e expirar tudo... E repito este gesto uma e uma e mais uma vez.

Não consigo perceber a quantas anda o mundo lá fora, não consigo ouvir ninguém, apenas vejo meros vultos que parecem chamar por mim, e embora eu tente ir com essas vozes, a força que me envolve é mais poderosa. Olho para o lado esquerdo e vejo a chave dos portões, dos meus portões de Viajante ao Vento, e inconsistente agarro nela e ao sentir a sua ferrugem, ao ver o seu pó a voar, revejo todos os meus momentos... A minha família de costas voltadas, pessoas que me fizeram promessas, amores perdidos, seres que espezinhei e vejo... Vejo o poço que sempre me disse "Não percebes? Estás sozinho!".

Volto a sentir a tal força poderosa... A mesma abre a porta do meu quarto, levanto-me, virando as costas aos vultos que chamam por mim lá fora, saiu do quarto e olho mais uma vez para trás... Vejo o palhaço triste, as fotos cobertas de pó, os peluches de uma infância perdida cheios de humidade, os livros que outrora me deram sonhos, agora estão rasgados. Saiu do meu quarto, não tenho expressão nem qualquer emoção, sigo aquela força que me guia e sem dar por mim, estou no meu mundo de Viajante ao Vento.

Porém, antes dos portões se fecharem, olho mais uma vez para trás e finalmente percebo... Vejo o meu corpo estático sentado no chão do quarto, tento perceber o olhar e é ai que noto... Noto que o olhar está vazio, não existe brilho algum, o que ali está é um corpo, um simples corpo que fuma o seu cigarro como se fosse o primeiro, que olha em todo o seu redor e encontra as histórias que leu, criou e viveu, e não percebe que a sua alma foi levada e que desta vez foi sem ele, tornou-se numa alma do vento.

Aquele corpo simplesmente se afastou e ainda acreditou que faria falta.