terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Escuro

É difícil dizer adeus, porém ao longo destes meus 20anos é o que mais tenho feito, e na maioria das vezes sem ter noção disso. Outros por morte, outros por ironia do destino e... e outros que perdi, magoei sem nunca o ter percebido. Talvez por sempre me auto-titular como o Viajante ao Vento, isto acabou por acontecer, porém a realidade é esta... estou sozinho, sem ninguém a quem socorrer.

 Já não sei o que é sentir aquele abraço, ouvir aquela palavra, sentir a mão que nos limpa as lágrimas, o rosto que nos faz sorrir... já não sei o que é isso, já não me lembro da ultima vez que me senti bem comigo mesmo. "O que se passou?" pergunto eu neste meu quarto escuro, frio que outrora esteve cheio de alegria, alegria que eu transpirava!

Hoje o que vejo é o fato de Carnaval consumido pelo pó, as fotos destruídas pelo frio, as prendas trocadas esquecidas no quanto por baixo de todos os bonecos de uma infância perdida, a roupa vibrante perdida no fundo das gavetas, o quadro do palhaço que antigamente sorria e que agora grita sem conseguir ser ouvido, neste mundo que fui criando, neste lugar onde o silêncio permaneceu e consumiu todas as lembranças de felicidade, dando lugar a isto. "Isto o que?" perguntam vocês... isto, eu! O Sérgio que diz as maiores piadas, que ri, sorri... faz o pino e monta o circo só para que todos à sua volta estejam bem, estejam a rir, mas que quando ninguém o vê, ele... eu tiro a máscara, baixo o pano e saiu do palco.

Penso que por vezes o mais difícil é enfrentar o espelho, se pensarmos bem quantas vezes olhamos para o espelho olhos nos olhos e enfrentamos o reflexo sem medo? Todos temos medos, receios... desejos, sonhos... por vezes nesse caleidoscópio de emoções e sentimentos... sinto-me... sufocado, perdido... tenho medo da solidão, e não tenho medo de o verbalizar. Tenho medo deste sentimento que me domina, porém a solidão já não me doí, passou a ser um hábito que não foi uma escolha minha.

Sento-me no chão, no recanto mais reconhecedor... encosto a minha cabeça na cómoda e ao olhar para as minhas mãos vejo tantos pedaços de mim separados e pisados por todos. Relembro que até hoje não chorei a morte do meu "pai", relembro mais uma vez que estou sozinho, embora rodeado de pessoas, essas nunca seriam capazes de estender a mão, pois tal como eu, elas mudaram. Fartaram-se, cansaram-se... afastei, afastei-me e acreditei que faria falta, mas a verdade, embora doa, é esta... ninguém veio ter comigo!

Levanto-me, olho para o relógio e vejo que parou no minuto 10 das 11 horas. A sopro para o calendário preso no quadro de cortiça e reconheço a data... 5 de Maio de 2010. Percebo finalmente que o tempo neste quarto parou. Olho novamente em volta, todavia continuo nesta solidão... tiro o telemóvel do bolso e choro para o ecrã partido. Tento gritar mas nada me sai, porque as pessoas à minha volta só me ouvem no palco quando estou a rir. Canso-me de tentar e olho novamente para o palhaço... deito-me nú de medo e de esperança, deixando assim que o pó me envolva e que a solidão me faça adormecer e quem sabe não mais acordar.