segunda-feira, 21 de maio de 2012

Viajante

Já algum tempo que não escrevo, já algum tempo que não defino o meu ser. Talvez tenha andado perdido pela multidão, ou simplesmente o vento decidiu levar-me consigo... Não, o vento levou-me e como tal folha caída no chão regressei ao mundo.

 Pensei que finalmente estava livre, livre do farto de ser um viajante sem alma ou coração e simplesmente com uma máscara de felicidade que esconde um olhar vazio, um rosto de vergonha e carregado de lágrimas. Mas enfim, viajante uma vez, viajante para sempre. Se é uma maldição? Dádiva? Já não sei, pois os dias passaram a semanas, meses, anos até ao dia que fiz 20anos e tudo voltou.

 Acordei, abri a janela e senti aquele vento que me cobriu e consigo levou sonhos, sorrisos, pessoas, até que me deixou assim... agora o que sinto são simples vultos á minha volta, agora o que tenho são meras lembranças que me fazem chorar a cada respirar, pois cada bafo é como uma laminada que percorre os meus braços sem se importar com o sangue que vai derramando, sem olhar em volta, sem perceber que não, já não sinto nada.

 Olho em volta novamente, de longe bem no cima consigo ver o portão que quebra a barreira das sombras, mas este mundo que me tornou viajante ao vento não me deixa voltar, a Solidão e a Escuridão voltam a reinar e o poço que outrora me dava conforto, hoje simplesmente está vazio e escuro como se me disse-se "Aqui vais ficar, aqui vais permanecer, aqui vais dormir." Embora tente, de nada adianta, pois as sombras deste mundo levam consigo a réstia de esperança que vou criando, pois o meu sangue vai ficando marcado nas pedras por onde ando, os meus pés vão ficando cada vez mais frios e o meu corpo cada vez mais negro, enfim... Não se pode fingir para sempre, não consigo ser o actor principal num mundo onde não posso chorar, onde sou aquele que passa e ninguém vê, o que grita e ninguém ouve.

 Tudo está em silêncio, todavia consigo ouvir, mas não sentir as laminas na minha pele, consigo ouvir o meu pouco sangue a cair nas pedras, consigo ouvir os murmúrios das sombras sobre o meu castigo, sobre terem esperado eu fazer 20anos.

 Fiz 20anos, e tudo começou, voltei a ser o Viajante ao Vento, preso no mundo que já não é o meu, mas que me acolhe e o porque? Porque simplesmente fiz uma promessa, porque durante este tempo fugi do mundo para ir em busca daquele sorriso, daquele olhar que me fazia desejar o céu e sentir o Sol, contudo tudo tem um preço e eu não sou excepção, sinto falta do respirar, do sorrir, mas não, não posso parar agora... Pois no final, ser herói tem um preço.